19 de fevereiro de 2015

Nós e os avós dos nossos filhos

Infelizmente, os meus filhos já só têm as duas avós. A minha sogra, por questões de idade e de saúde, não participa activamente no nosso dia a dia. Mas a minha mãe, sim. É uma ajuda preciosa a quem ligo às 8 da manhã de segunda para ir lá para casa porque o Afonso acordou com varicela, que lá fica uns dias para nós irmos para Roma, que os vai buscar à escola sempre que é preciso, que fica com eles para nós irmos ao cinema... Basicamente, a minha mãe tem muita disponibilidade e está muito disponível. Que paraíso, dizem vocês. E é. Somos uns sortudos, mas as coisas nem sempre são fáceis.

- oh, mãe, já lhe pedimos para não dar a comida à boca ao Alexandre. Ele tem 5 anos!
- oh, filha, mas ele não come nada...
- paciência! Ele tem de comer sozinho, mãe. Por favor.
E eu viro costas e lá está a minha mãe a despejar comida pela boca do meu filho

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- oh, mãe, gomas não...
- oh, filha, é só hoje. Fomos ao cinema e ele queria tanto...
- E a avó também me deu smarties e bongo, mãe!!!

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- oh, filha, a comerem com a mão
- Deixe estar, mãe, o importante é que ele coma sozinho
- (os meus netos são uns selvagens, pensa a avó)

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- O que é que se passa aqui?
- A avó deixou-nos comer a fruta na sala a ver televisão!
- oh, filha, eles não queriam comer...

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Estes são apenas alguns exemplos que acontecem lá em casa quando nós não estamos. E tenho a perfeita noção que assim que eu e o meu marido viramos as costas a minha mãe faz tudo à maneira dela e pura e simplesmente ignora o que nós dizemos. Até porque a minha mãe não concorda minimamente com a educação que damos aos nossos filhos.
- não percebe porque é que preferimos que eles não comam do que lhe darmos à boca
- não percebe porque é que não vestimos o mais velho, lhe lavamos a cara e os dentes para ser mais rápido e ficar melhor
- não percebe porque é que às vezes não levam umas palmadas
- não percebe que eles nos tratem por tu

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Apesar de tudo é a melhor avó do mundo e os meus filhos adoram-nos. E é um braço direito extraordinário e uma grande ajuda, mas devia respeitar-nos como pais e perceber que queremos fazer (muitas coisas) de maneira diferente do que ela fez. E temos esse direito e essa legitimidade.

E por isso partilho o post da Mum's the Boss sobre o coaching para avós. Sinceramente, acho que a minha mãe ia ficar ofendida...




Não são só os miúdos que nos podem levar à loucura. Os avós também. Seja porque são demasiado permissivos ou demasiado autoritários. Basicamente, porque o conflito de gerações continua e o estilo de parentalidade deles não é o mesmo que o nosso. Seja porque nos desafiam. Seja porque é a nossa mãe ou a nossa sogra. Seja pelo motivo que for. Tiram-nos do sério e levam-nos a um valente ataque de nervos. Até mesmo os que vivem longe de nós!

Já há meses que tenho um post iniciado sobre este tema mas o post da Marisa, deste domingo, fez-me repescar o assunto e escrever sobre ele numa perspectiva diferente.

Podia aqui escrever sobre aqueles avós que mimam em demasia os netos. Que lhes dão sempre o prato de fritos favorito, a bola de berlim cheia de creme 4 dias depois dos putos terem apanhado uma gastro, ou aqueles que os deixam ver o panda até à meia noite. Podia aqui escrever sobre os avós que se viram para ti e te dizem, na frente dos teus filhos, que não estás a educá-los em modos. Ou aqueles que dizem que tu nunca respondeste daquela forma e que uma palmada bem dada é o que ele está mesmo a precisar. Ou podia falar ainda daqueles avós que quando tu dizes que ‘não há mais bolo de chocolate’ se levantam e voltam a encher o prato com mais uma fatia, desautorizando-te.

Mas porque há tantas versões e modelos de avós (até porque depois há avós que são sogros e aí a coisa complica-se! – ou não!) prefiro falar sobre ti e a tua relação com eles. Fica mais fácil – ainda que seja um tema e um assunto hiper complexo, com muitas nuances. Então vou escrever de forma genérica com as linhas pelas quais te possas orientar e reflectir.

Há uma frase que adoro e que me serve sempre de grande orientação e que diz
‘Cada macaco no seu galho’.

E o que é que eu quero dizer com isto?
Que mãe é mãe e avó é avó. A função de educar pertence inequivocamente à mãe.
Sim, as avós ajudam e muito. São elas que muitas vezes ficam com eles, que vêm lá a casa para que possamos sair e ter vida própria e fazem isso por gosto e também porque percebem que precisamos dessa mão. Ainda assim, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mãe é mãe, avó é avó! E por  isso cada uma delas deve estar no seu galho!

Por isso, quando o conflito de gerações volta (pois, eu também pensava que aquilo terminava no fim da adolescência), é normal que nos sintamos incomodadas. Repara: se fosse a funcionária de uma loja de bebés a dizer-te uma coisa semelhante, o mais certo era ou ter o teu olhar de desprezo, uma resposta à altura do atrevimento ou não estares nem aí. Mas com as nossas mães (ou sogras!) há uma ligação emocional forte. E também há a esperança que elas estejam lá para ajudar e não para criticar. Não o fazem por mal. Aliás,  já estiveram no nosso lugar e sabem fazê-lo. Mas tudo seria muito mais simples com um ‘Eu sei que parece complicado – mas daqui a nada já és uma especialista a preparar os biberons!’ em vez do ‘Sai mas é da frente que por este andar o menino ainda morre à fome. Deixa-me preparar o leite!’.

As nossas expectativas são grandes, em relação às avós. Numa fase em que tudo é novo (e não me refiro apenas aos bebezinhos – também falo quando eles já são maiores) – dizer que estamos a fazer mal, fazerem o contrário daquilo que nós pedimos e queremos é no mínimo perturbador e irritante. E sim, eu sei que não é por mal. E sim, eu sei que é com a melhor das intenções mas quando recorrentemente as intenções são sempre as melhoras apetece-me dizer que ‘de boas intenções está o inferno cheio’ e isso já me soa a desculpa esfarrapada para se fazer como se quer... E digo isto dos avós e também a qualquer outra pessoa que me diz sempre ‘ah e tal, não foi por mal’.

Posto isto, vamos falar agora do que é mesmo importante. Depois de tudo o que disse... caio em mim, e pergunto-me se ali também não há um bocadinho de responsabilidade minha...

Ora pensa aqui comigo: será que a minha mãe já me vê como uma mulher, mãe, pessoa responsável que sou e sinto que sou ou será que eu continuo a alimentar a minha imagem de jovem de 22 anos a viver ainda em casa dos pais (embora já tenha saído do ninho há mais de 10 anos)? Será que me faço entender?

Eu cresci, é certo. E também é certinho que vamos ser sempre uns pequeninos aos olhos dos nossos pais. Mas a questão é ‘que imagem é que eles ainda têm de nós?’ Será que já apagámos a imagem da jovem de 22 anos? Mesmo? E qual foi a imagem que a substituíu?

Se esta imagem foi bem substituída e os nossos pais são pessoas equilibradas e mentalmente sãs, podem volta e meia ‘estragar’ os netos com mimos e com ‘pega lá mais este chocolatinho’ mas saberão qual é o lugar deles e farão como lhes pedirmos. Porquê? Porque sabem que ‘cada macaco (neste caso : macaca) no seu galho. Deslizam – faz parte – mas logo a seguir encontram o rumo.

A Marisa perguntava se não era boa ideia haver coaching para avós. No fundo, a questão parece-me ser mais ‘como é que eu lhes enfio na cabeça que eles não podem fazer tudo o que desejam?’
E eu adorava ter uma varinha de condão para ajudar mas não tenho.

Tenho sim a certeza que quando tu te sentes legitimada no teu papel de mãe então tudo terá um outro impacto e um outro resultado. Aos poucos. Porque não há mudança que de facto se mantenha se não for feita de forma segura e com tempo.

E isto de se sentir legitimada é sentires que tens as tuas certezas e as tuas dúvidas também. É assumires isso perante ti e os outros. É sentires que escutas os outros, que pensas e decides sobre o assunto. E fazes tudo isto tudo com uma atitude madura, que vem de dentro e que não precisa de provar nada a ninguém. E é esta atitude madura que está em concordância com a tal imagem que eu falava há pouco. A de uma mulher, mãe, pessoa responsável que por acaso é filha (ou nora!) daquele senhora. E que se passa quando tem de se passar. Mas que também sabe aceitar que os avós têm vontade de opinar e vibram com os nossos filhos que sentem como sendo um bocadinho deles.

Sinceramente, não me parece que os avós precisem de coaching se o que acima escrevi ainda não estiver em ti. Garante essa tal imagem. A partir daí o resto vem. Posso assegurar-te!

Até lá, leva as coisas mais a brincar. Sabes porquê? Porque nunca sabemos quanto tempo nos resta. Então brinca mais, goza com os teus pais, tira-os do sério. Encontrem o vosso espaço: o de mãe, o de filha e o de avó. E gozem! Quando deres conta, estás tu no papel dela!

2 comentários:

  1. Mas nunca te esqueças que cada um tem o seu papel e há lutas que nem vale a pena travar!! Lol... A minha mãe também não faz tudo como eu quero, te garanto!

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    1. Ah, sim, eu sei, e nem vale a pena entrar em guerras... E eles também aprendam rápido que há coisas que a avó deixa fazer mas que não podem fazer com os pais.

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Gosto de saber o que as outras vidas têm a dizer sobre isto!