Manuela, devias ser mãe." A directora financeira, de 42 anos, não faz segredo do assunto e, sempre que os colegas da empresa se metem com ela, brinca: "Não há pressa, tenho as minhas meninas congeladas." Há três anos, tomou uma decisão: pôs a carreira profissional em primeiro lugar. Tinha uma relação de quatro anos, partilhava casa e era previsível que o próximo passo fosse constituir família. Mas, nessa altura, mudou de emprego e entrou num novo projecto. Não achava que fosse o momento certo para ser mãe.
Os seus pais tiveram filhos muito cedo, os irmãos também – tem uma sobrinha com 19 anos, os mais novos com 12 –, mas Manuela sempre foi mais ambiciosa. "Tinha como meta sentir-me realizada profissionalmente, tirei Gestão e o cargo onde estou hoje sempre foi uma aspiração", diz à SÁBADO. Mas a maternidade também fazia parte do seu projecto de vida. Descobriria aos 38 anos que, apesar do relógio biológico, não precisava de abdicar do sonho. Podia congelar os seus óvulos.
No fim do ano passado, a Apple e o Facebook anunciaram que pagariam a congelação de óvulos às funcionárias que quisessem adiar a maternidade e investir na carreira. O objectivo era atrair mulheres para empresas cuja maioria dos trabalhadores ainda é do sexo masculino. Contudo, a medida gerou polémica: estariam só a oferecer uma oportunidade – a mulheres como Manuela – ou a anunciar uma imposição?
A directora financeira assume que uma ajuda deste género teria sido óptima, apesar de admitir que a medida possa ser perversa. No meio onde trabalha, e sobretudo em lugares de topo (como aquele em que está agora), existe alguma pressão sobre as mulheres. "Numa das primeiras empresas onde estive, logo no início da minha carreira, perguntaram-me se estava a pensar ter filhos. Quando eu disse que sim, responderam-me logo: ‘Espero que não seja nos próximos anos’", recorda.
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Na empresa onde está há já seis anos não sente esse constrangimento. Decidiu congelar os óvulos por causa de uma amiga, dois anos mais nova, que teve de fazer tratamentos de fertilidade por não conseguir engravidar. "Serviu-me quase de alerta, pensei que podia já não ter óvulos viáveis e decidi precaver-me." Tem sete óvulos preservados, ou seja, sete hipóteses de poder vir a ser mãe e, embora esteja solteira, acredita que até aos 49 anos pode vir a utilizá-los.
Óvulos frescos ou congelados?
Há mais de 30 anos que é possível congelar esperma, mas a criopreservação de óvulos é relativamente recente. Isto porque, enquanto o espermatozóide é a célula mais pequena do corpo humano, o óvulo é a maior, e quanto maior a célula, mais difícil é congelá-la. "A congelação consiste, de uma forma muito simples, em remover toda a água do interior das células e substitui-la por um líquido crioprotector", explica à SÁBADO o embriologista clínico Vladimiro Silva. Só há cerca de 11 anos, no Japão, foi desenvolvida uma técnica pioneira que permitia congelar óvulos com uma taxa de sobrevivência de perto de 90%.
Contudo, seria preciso esperar até 2013 para que esta técnica deixasse de ser considerada experimental. Só então é que a Sociedade Americana de Medicina de Reprodução, a referência em termos mundiais nesta área, a legitimou oficialmente: "Existem evidências científicas de que as taxas de fertilização em gravidez com óvulos frescos são semelhantes às que se obtêm com óvulos vitrificados", pode ler-se na directiva emitida a 1 de Janeiro de 2013.
Ana (nome fictício), 39 anos, começou há uns dias a fazer a estimulação hormonal necessária para poder congelar os seus óvulos. O tratamento dura cerca de 10 a 15 dias e consiste em injecções diárias aplicadas na barriga. "Os ovários de uma mulher, por norma, só produzem um óvulo em cada mês. Esta é a única maneira de ter, no mesmo ciclo menstrual, 10 a 14 óvulos, porque a ideia é ter uma quantidade de material que constitua uma possibilidade palpável de gravidez no futuro", explica Sérgio Soares, director do Instituto Valenciano de Infertilidade (IVI).
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Ana espera que nos próximos cinco anos, até aos seus 45, apareça alguém com quem possa partilhar o projecto de ser mãe. Nunca foi casada mas teve uma relação de oito anos. "Quando começámos tinha 23 anos, depois a carreira foi-se sobrepondo ao resto, houve uma altura em que trabalhávamos bastante os dois, até aos fins-de-semana, e acabei por ir adiando a maternidade", conta à SÁBADO. A proximidade dos 40 e o facto de todas as suas amigas estarem a ter filhos despertaram novamente o seu instinto maternal.
Uma espécie pouco fértil
Quando procurou aconselhar-se com a sua ginecologista, a professora do terceiro ciclo e do secundário estava decidida a avançar sozinha. "Hoje em dia, não é preciso dormir com um homem para ser mãe e não faz sentido fazê-lo levianamente se a ciência permite outras formas", diz. Teve que adiar o projecto: em Portugal, só podem fazer tratamentos de procriação medicamente assistida casais heterossexuais. E estes só podem recorrer à doação de óvulos ou de esperma se existir um diagnóstico de infertilidade. Ou seja, Ana nunca poderia ser mãe solteira, tem sempre que existir um pai.
Ao contrário do que se possa pensar, a espécie humana não é muito fértil. "Um homem e uma mulher saudáveis, no pico da fertilidade e que façam as coisas no momento certo pelo método natural, têm uma taxa de sucesso de gravidez de cerca de 25%, porque grande parte dos nossos óvulos e espermatozóides são inviáveis", diz Vladimiro Silva, director do laboratório do Centro de Estudos de Fertilidade Ferticentro.
Segundo os especialistas, o ovário é um órgão particularmente sensível à passagem do tempo o que significa que, quanto mais novos forem os óvulos, maior a probabilidade de fertilidade. A melhor idade para criopreservar estas células situa-se entre os 30 e os 35 anos, indica o ginecologista Sérgio Soares, do IVI. Segundo o especialista, a grande vantagem desta técnica é permitir às mulheres fazerem uma fecundação in vitro mais tarde, com os seus próprios óvulos porque, quando congeladas, estas células preservam a qualidade que tinham quando foram extraídas. Ou seja, não envelhecem.
Não existe, por isso, um prazo limite – o critério é que os óvulos da mulher ainda estejam a funcionar. "A receptividade uterina cai mais tarde do que a funcionalidade ovárica, ou seja, o útero só começa a perder a sua funcionalidade perto dos 50 anos", explica Sérgio Soares, que ressalva: "Claro que não é ideal adiar tanto um tratamento de fertilização porque há complicações associadas à idade, como a hipertensão." Mas já lhe aconteceu, por exemplo, congelar os óvulos de uma mulher de 41 anos. "Esta mulher teve uma resposta óptima, conseguimos uns 17 óvulos, o que é atípico para a idade. Quando se descongela, a taxa média de sobrevivência dos óvulos é de 85% a 90%, ou seja, em 10, sobrevivem 8,5 ou 9. Mas esta média também é afectada com a idade.
Sara (nome fictício) fez o procedimento na altura ideal: há três anos, quando tinha 31. Leu um artigo sobre o tema numa revista, investigou e achou que podia ser uma solução. Casada há 10 anos, trabalha como empregada de balcão numa loja; o marido é desenhador num ateliê de arquitectura. Vivem num T2, e até têm espaço para um bebé, mas ainda não é o momento: "Um filho é um projecto de vida dispendioso. Temos o quarto, mas depois há a alimentação, as fraldas, a creche…"
Segredos de família
Sara não partilhou com ninguém, além do marido, a decisão de congelar os seus óvulos. "É uma coisa nossa, muito pessoal, nem contámos às nossas famílias." Mas teve que lhes pedir ajuda para pagar o procedimento. A recolha e a criopreservação dos óvulos são comparticipadas pelo Sistema Nacional de Saúde apenas em situações em que a fertilidade está ameaçada pelo tratamento de uma doença, como o cancro.
Nas clínicas privadas, os únicos sítios que atendem mulheres por razões sociais ou pessoais, o procedimento pode custar, no total, até 3.000 euros. Legalmente, os óvulos são congelados por três anos e renovados sucessivamente por períodos idênticos. Ou seja, a este valor acresce um custo de manutenção de cerca de 500 euros pelos três anos seguintes, se a mulher quiser que os seus óvulos continuem congelados.
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Sara conseguiu congelar 10 óvulos. "São os nossos ovinhos", costuma dizer. Além disso, também abriu uma conta-poupança (de propósito) para este projecto futuro, e todos os meses deposita lá dinheiro. A ideia é esperar mais dois ou três anos e então começar a tentar engravidar naturalmente – apesar de ter os óvulos congelados, por imposição legal, só poderá usá-los se lhe for diagnosticada infertilidade.
Já Elisa Coelho, 42 anos, arrepende-se de não ter tomado a mesma decisão mais cedo. "Se tivesse sabido antes, poderia ter conseguido 10 ou 15 óvulos, em vez de cinco", diz à SÁBADO. O histórico da família tranquilizava-a: só teve a primeira menstruação aos 14 anos, mais tarde do que o normal, e a mãe não se lembra de ter entrado na menopausa. "Só aos 57 anos, quando fez uma cirurgia, é que acabou por tirar o útero e os ovários", conta.
Elisa só decidiu investigar o que se passava consigo por indicação da ginecologista quando, há cerca de três anos, lhe falou do seu desejo de ter filhos. "Fiz uma série de análises ao sangue, exames e ecografias e foi então que percebi que já tinha uma reserva muito baixa de óvulos", diz.
Nunca tinha ouvido falar da criopreservação de ovócitos mas, quando a especialista lhe falou desta possibilidade, não hesitou: "É uma garantia que me dá alguma tranquilidade. Seria muito frustrante se daqui a uns anos quisesse engravidar e já não conseguisse", explica. A publicitária, que trabalha numa produtora, passou pelo procedimento duas vezes, porque à primeira tentativa (em Maio de 2012) só conseguiu congelar dois óvulos.
Fisicamente, para a mulher, a extracção é simples: o procedimento demora 10 minutos e é feito sob sedação. Umas horas depois, vai para casa. Emocionalmente, pode ser mais complicado. "Mexe connosco, com o nosso sonho, há um desgaste muito grande, por causa das expectativas – é algo que queremos que dê certo, mas que não controlámos de modo nenhum", diz.
No segundo tratamento, em Fevereiro de 2013, Elisa Coelho conseguiu três óvulos viáveis e decidiu parar por ali. Não tem um plano em concreto para o futuro, mas admite que não quer ser mãe aos 50 anos. "Acho que não terei coragem para aguentar as noitadas", confessa. Se nada mudar na sua vida, tem duas possibilidades: fazer a fertilização in vitro em Espanha – onde, ao contrário de Portugal, está acessível a mulheres solteiras –, ou, se achar que é tarde demais, doar os seus óvulos.