21 de abril de 2015

Aos 5 anos falou-me da revolução

Quando vínhamos a sair da escola, diz o mais velho, entusiasmado: aprendi uma música nova com a professora de música! E começa a cantar:

"Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão perceber como se ganha uma bandeira
E vão saber o que custou a liberdade"
Canta na perfeição. E depois diz, muito entusiasmado: sabias que antes da liberdade não podíamos dizer o que sentíamos?
E eu emocionei-me tanto com o que ele disse e com a maneira com que disse. Para ele, não poder dizer o que se sente não faz sentido nenhum. Tem 5 anos e eu senti um imenso orgulho por ele já saber tantas coisas. E falámos da revolução, do que significou o 25 de Abril, além do aniversário da tia I. E achei fantástico que numa instituição religiosa ensinassem aos miúdos o valor da liberdade e da importância do 25 de Abril.

E aproveitei para lhe falar da liberdade. Da importância de sermos livres e dele nunca permitir que lhe digam o que pensar ou o que sentir. Falei do bom que é podermos ler os livros todos que queremos, de podermos manifestar-nos quando não concordamos com alguma situação, de termos todos opiniões diferentes e respeitarmo-nos uns aos outros, independentemente das nossas ideias, religião ou cor. Disse-lhe que a revolução teve coisas boas e outras menos boas, como tudo na vida, mas que foi graças à revolução que hoje somos como somos e temos a nossa liberdade e os nossos direitos. Há quem te possa falar mal da revolução e não goste que cantes essa música...

Ele ficou admirado.

Mas a revolução era necessária para a liberdade de todos. 



Eu cresci numa família de direita, muito tradicional e conservadora que sofreu muito com o 25 de Abril, mas a ironia do destino fez com que a minha irmã nascesse nesse dia e que de há 33 anos para cá seja um dia de festa. 
Nem consigo imaginar a minha vida se não tivesse sido o 25 de Abril, não sei se teria sido mais ou menos feliz,  mas tenho a certeza que não me tinha sido permitido tomar grande parte das decisões que tomei: viajar pelo mundo sozinha e com amigas enquanto estava na faculdade sem precisar de autorização de ninguém porque já tinha 18 anos, estudar comunicação social em vez de direito, sair de casa quando acabei a faculdade para ir viver sozinha, viver com o meu namorado antes de casar, casar pelo civil e não pela igreja... Tanta coisa.

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