2 de maio de 2019

Não gosto nada do ditado "Filho és, pai serás; assim como fizeres, assim acharás"

Não gosto nada do ditado "Filho és, pai serás; assim como fizeres, assim acharás" talvez porque espero não ser para os meus filhos uma mãe como a minha foi e é para mim (e também para a minha irmã). Tive e tenho a melhor avó (materna) do mundo, uma mulher exemplar, que adoro, que admiro, que respeito como a mais ninguém. É a minha referência como mãe e como mulher, sempre muito próxima e com uma palavra sábia na altura certa. Passava dias, semanas e até meses a fio com a minha avó e o meu avô em criança e adorava.  Com a minha mãe a relação sempre foi mais distante e menos intensa, mais superficial... quando o meu filho mais velho nasceu ainda se aproximou um bocadinho de nós, parecia que ser avó ia ser especial, que nos ia aproximar, ofereceu-se para ficar com ele antes dele entrar na creche, mas rapidamente se arrependeu. Para quem nunca teve obrigações nem responsabilidades, quem sempre teve empregadas internas para cuidar das filhas, ter um neto todos os dias, o dia todo, era uma prisão. Apesar de nunca o ter assumido sabemos que foi um alívio quando aos 9 meses, em Setembro, ele entrou para a creche. E nunca mais ficou a tempo inteiro com nenhum neto. Só o mais velho chegou a dormir em casa da avó uma ou outra vez...  Tal como nunca teve uma relação próxima comigo, ou com a minha irmã, também não tem com os meus filhos, que preferem a bivó apesar dos seus 97 anos. Nunca tinha conhecido netos que não querem estar com a avó, eu pelava-me e ainda hoje adoro estar com a minha avó, mas os meus filhos não têm essa sorte. O mais velho já me disse, muito envergonhado e triste: oh, mãe, eu sei que a avó é tua mãe, eu sei que a avó é tua mãe, mas nós não gostamos muito dela... Quando eram bebés a minha mãe ainda ia dando uma ajuda. Eu trabalhava, ela não, ela era avó e na minha cabeça as avós cuidam dos netos. E pedia-lhe, ela ficava sempre, logo, disponível... mas depois cobrava. Como posso trabalhar em casa passei a ficar sempre eu com os miúdos, apesar de isso significa trabalhar noite dentro, já que não é fácil trabalhar com filhos, ainda para mais doentes em casa. E assim nós fomos todos afastando cada dia mais um bocadinho. E eles foram crescendo e combinou-se que a avó levava os rapazes à música, também para me libertar um bocadinho, mas depois também isso acabou... eles já não queriam ir à música porque não queriam que fosse a minha mãe a levá-los,  apesar de ela os encher de chocolates e gomas às minhas escondidas... as relações não se forçam, constroem-se ou destroem-se.... e eu tenho pena que eles já não tenha nenhum avô vivo, que a avó paterna esteja com demência e que a minha mãe queira meninos perfilados do século passado que não têm vontade nem voz própria. Eu só tenho 40 anos, mas fui educada da forma mais antiquada possível... claro que comecei a trabalhar e a ganhar o meu dinheiro cedo e aos 21 anos já tinha arrendado o meu primeiro apartamento. Não tirei o curso que os meus pais queriam (segui Comunicação, quando Direito é que era bem visto) e fui viver sozinha, para choque da minha mãe que viu tudo com muito maus olhos, mas sem nunca perguntar o porquê. Na minha família não se falava e ainda hoje não se fala de sentimentos. Felizmente em minha casa, eu e o meu marido falamos e incentivamos os nossos filhos a falar de tudo, não há tabus, não há assuntos proibidos, falamos de acordo com as idades. Não sei se estamos a fazer bem ou não, mas entregamo-nos todos os dias aos nossos filhos e à vida que escolhemos. Nunca me levaram à escola, ia sempre nas carrinhas dos colégios, passava horas de manhã e de tarde, e talvez por isso faça tanta questão de todos os dias levar e ir buscar os meus filhos, para que eles se sintam especiais no final do dia... Eles e eu, porque é das melhores coisas do mundo chegar ao final do dia ao jardim de infância e vê-los correr para nós, suados e felizes, para nós beijarem! O mais velho, no 3º ano, já não faz tanto alarido, mas gosta na mesma. Não acredito em ditados que nos prendem e acredito que as relações dependem de nós, do que nós fazemos por elas. E eu tento todos os dias ser a mãe que os meus filhos precisam, ser um exemplo para eles e construir com eles uma relação forte, de confiança, amor e respeito mútuos. Espero que um dia eles gostem de estar comigo e eu com eles, que façamos programas porque sim e não porque é Natal e dia da mãe e temos de estar juntos só porque tem de ser. 

2 comentários:

  1. Parabéns pela coragem em abordar este tema difícil, sempre achei que a mãe das autoras dos mummy blogs e por vezes a grande ausente e tu foste frontal e mas sem pena de ti própria

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  2. Eu tive uma relação diferente com a minha. Lembro-me de sentir sempre que a minha irmã era a preferida, não sei talvez o facto de ser mais nova ou então era por ser loirinha e de olhos verdes como a minha mãe. Curioso, agora que sou adulta acho-me igual a ela. Olho ao espelho e vejo-a, logo ela que sempre disse que eu era a cara do meu pai. Acho que nos entendemos melhor quando eu cresci. A minha mãe sempre cuidou muito bem de nós, e fez tudo o que pode para que tivéssemos o melhor. Conseguiu. E já adulta, casada e com filhos ia muitas vezes almoçar e passear com a minha mãe, era óptima companhia. Durante os anos em que era miuda sempre achei que podia ser melhor nisto ou naquilo mas agora que sou mãe, acho até que ela era melhor mãe do que eu própria sou hoje. E passou-me muito dela: no gosto pelos passeios, viagens museus e história. No estilo pessoal e de vestir e na maneira de ser também. Era ela que me ficava com as miúdas nas férias quando eu precisava de trabalhar, ou quando queria ir jantar fora com o meu marido num dia especial. As miúdas gostavam muito dela, principalmente a Maria. Tenho tantas saudades ...

    Tenho muita pena que sintas essa falta toda de uma mãe que apoie e que esteja lá, que ajude com os netos, é o comum mas nem sempre acontece. Na verdade não podemos mudar os outros mas podemos fazer alguma coisa para fazer valer as nossas ideias e aquilo que queremos para nós, por isso fazes tudo pelos teus filhos. Não têm avós, os meus também não têm, mas têm uma mãe e um pai fantásticos, tenho a certeza!

    Beijinho

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Gosto de saber o que as outras vidas têm a dizer sobre isto!